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Tudo o que você precisa saber sobre esquizofrenia infantil

Tudo o que você precisa saber sobre esquizofrenia infantil

Cerca de 23 milhões de pessoas são afetadas pela esquizofrenia em todo o mundo, segundo a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas). Definida como um transtorno mental grave e crônico que exige tratamento ao longo da vida, a doença geralmente dá sinais no fim da adolescência ou no início da vida adulta, ocorrendo com mais frequência entre 20 e 30 anos de idade. Porém, a condição também pode surgir em crianças e adolescentes, e identificar o transtorno e começar o tratamento o mais cedo possível pode proporcionar melhores resultados.

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Não existe uma forma única de como a esquizofrenia infantil atinge cada paciente. O transtorno é uma patologia psiquiátrica que leva a distorções na forma e no conteúdo dos pensamentos, na percepção, nas emoções e no comportamento. É uma desordem cerebral que interfere na capacidade de pensar, tomar decisões, relacionar-se com os outros e dominar as emoções. Assim, há a perda do contato com a realidade — a denominada psicose.

Quando os sintomas psicóticos específicos e os prejuízos nas funções adaptativas surgem entre 13 e 17 anos de idade, a esquizofrenia infantil é considerada precoce; se esses indícios aparecem antes dos 13 anos, ela é apontada como muito precoce. Algumas características normais da idade nessas fases da vida, porém, podem dificultar o diagnóstico na infância, principalmente em pacientes com menos de 7 anos.

A dificuldade de distinguir a esquizofrenia infantil de outras doenças também pode ser um obstáculo para se fazer o diagnóstico correto na infância. Pode-se demorar meses ou até anos para se chegar a uma conclusão que diferencie corretamente uma fase normal da vida — uma transição pela qual todos passam — de casos em que realmente há um transtorno.

Ao suspeitar de esquizofrenia infantil, o profissional que acompanha o paciente precisa saber detalhes sobre o desenvolvimento intelectual, afetivo e motor da criança, uma vez que pode ser difícil diferenciá-los de outros quadros, como o transtorno afetivo bipolar. Por isso, é necessário realizar diferentes avaliações.

Quando a esquizofrenia infantil surge antes dos 5 anos, por exemplo, alguns aspectos podem ser confundidos com sintomas que também estão presentes no autismo ou na depressão. Nos casos de crianças com menos de 3 anos, inclusive, é improvável que o diagnóstico diferencial possa ser feito. Com o passar do tempo e o surgimento de sintomas psicóticos, é possível realizar o diagnóstico correto com mais segurança.

Primeiros sinais

Como, então, é possível identificar se seu filho tem algum indício de esquizofrenia? Existem sinais de alerta, e os primeiros deles são a tendência cada vez maior ao isolamento e a perda de interesse em atividades que antes eram prazerosas. Essas mudanças, muitas vezes, podem ser percebidas antes pelos professores e comunicadas aos pais e familiares.

Posteriormente, surgem outros aspectos do transtorno, como alucinações, delírios, temores de perseguição e manipulação, quadros paranoicos e contenção de emoções — quando não há resposta a situações emocionais nem pela fala nem pelas expressões. Risos inadequados ou crises de choro sem explicação também são alguns comportamentos possíveis.

Os pais devem ficar atentos se a criança passar a apresentar dificuldades para manter uma boa higiene ou aparentar desleixo com a alimentação e a aparência. Outro sinal é não manter um bom desempenho escolar. Caso a criança passe a apresentar comportamento violento, rituais alimentares estranhos, atraso de desenvolvimento em relação aos irmãos ou colegas, confundir sonhos ou programas de televisão com a realidade ou qualquer outro possível sintoma de distúrbio da saúde mental, deve-se buscar orientação de profissionais.

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Esses sinais podem não levar a um diagnóstico de esquizofrenia, mas a outras condições, como ansiedade ou depressão, ou podem indicar apenas uma fase difícil. Porém, caso haja alucinações, distorções da realidade ou padrões de pensamentos desorganizados, deve-se imediatamente procurar ajuda médica e psicoterápica.

Em adolescentes

Os indícios surgem lentamente na infância e se agravam ao longo da vida. Em adolescentes, os sintomas são parecidos com os de adultos, mas o diagnóstico pode ser dificultado nessa faixa etária. Isso porque alguns sintomas são comuns ao desenvolvimento dessa etapa da vida; falta de motivação, irritabilidade ou desânimo, problemas para dormir, queda no rendimento escolar e isolamento de amigos e familiares são alguns deles. Em comparação com os adultos, porém, os adolescentes tendem a ter menos delírios e mais alucinações visuais.

Para que os profissionais cheguem a um diagnóstico de esquizofrenia, o "Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais" (DSM-IV-TR) estabelece que os sintomas devem ter duração mínima de 6 meses. Além disso, a doença inclui, na fase ativa, pelo menos 1 mês de sintomas, e outros distúrbios que possam ter as mesmas manifestações devem ser descartados, tais como doenças autoimunes.

Evolução do quadro

Os sintomas típicos da esquizofrenia tendem a aumentar com o passar do tempo após o diagnóstico de uma criança com o transtorno. Alguns dos sintomas que podem ser observados são:

Delírios: crenças falsas que não têm base na vida real, esse sintoma ocorre na maioria das pessoas com a doença e pode se manifestar em situações nas quais o paciente tem convicção de que gestos e comentários de terceiros são sobre ele, que está sendo perseguido ou que tem fama ou uma habilidade excepcional. Esses sinais são considerados anormais quando não têm origem em experiências comuns à vida e são claramente implausíveis para pessoas que vivem na mesma cultura que o paciente; as crenças são fixas e não podem ser modificadas mesmo com evidências conflitantes;

Alucinação: são involuntárias e ocorrem quando o paciente vê ou ouve coisas que, na realidade, não existem; para ele, porém, é como se as situações estivessem acontecendo de verdade, com impacto e força equivalentes aos de uma ocorrência real. O principal tipo de alucinação é ouvir vozes, e, quando elas acontecem em momentos específicos, como ao adormecer ou ao acordar, o DSM-IV-TR afirma que são consideradas pertencentes ao âmbito das experiências normais;

Pensamento desorganizado: o transtorno do pensamento formal é percebido no discurso do paciente, a partir da fala desorganizada, que pode incluir mudanças de um tópico para outro, respostas com relação oblíqua ou sem conexão com as perguntas; sãos raros, porém, segundo o DSM-IV-TR, os casos em que o discurso é quase incompreensível. Para o diagnóstico, o sintoma deve ser grave a ponto de prejudicar, de forma substancial, a comunicação, pois um discurso levemente desordenado é comum em várias fases e situações do crescimento humano;

Comportamento motor extremamente desorganizado ou anormal: pode ser manifestar de formas variadas, desde agitação imprevisível até comportamento infantilizado e pode incluir manutenção de postura rígida, inapropriada ou incomum, falta de respostas e movimentos excessivos sem causa óbvia, por exemplo.

Sintomas "negativos": também chamados de sintomas deficitários, relacionam-se com a fase crônica da esquizofrenia infantil, como expressão emocional diminuída e avolia (menos realização de atividades motivadas, autoiniciadas e com finalidade), que são dois indícios que estão muito presentes nessa condição médica.

Causas da esquizofrenia infantil

Os especialistas ainda não chegaram a uma causa para a esquizofrenia infantil, mas pesquisadores acreditam que o desenvolvimento da doença tenha contribuição da união de três aspectos: química cerebral, genética e meio ambiente. Pode haver reforço, por exemplo, de problemas com a dopamina e o glutamato, produtos químicos naturais do cérebro. Estudos de neuroimagens, por sua vez, mostram que há diferenças no cérebro de pessoas diagnosticadas com a doença em relação ao sistema nervoso central e à estrutura cerebral.

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Apesar de ainda não ser conhecida a causa para a esquizofrenia infantil, alguns aspectos podem estar relacionados com ela, desencadeando a doença ou aumentando o risco de que ela seja desenvolvida. Alguns desses fatores de risco são:

  • histórico de esquizofrenia na família;
  • complicações na gravidez e no nascimento, como desnutrição, exposição a toxinas ou a vírus que tenham impacto sobre o desenvolvimento do cérebro;
  • aumento da ativação do sistema imunológico;
  • uso de drogas psicoativas durante a adolescência.

Chegando a uma resposta

Como citado, na infância e na adolescência os sintomas da esquizofrenia infantil podem ser muito parecidos com outros distúrbios mentais ou com aspectos normais do desenvolvimento em determinado momento da vida. Para se chegar a um diagnóstico, então, é preciso realizar uma série de exames e avaliações para excluir todas as outras possibilidades.

Esses testes podem ser exames físicos, para descartar demais problemas que poderiam causar os mesmos sintomas e verificar a existência de complicações, e avaliação psicológica, incluindo observação dos tipos de pensamentos, dos padrões de comportamento e dos sentimentos, e análise da capacidade de pensar e funcionar de maneira compatível com a idade; além de testes e exames que ajudem a excluir condições com sintomas semelhantes e até triagem de álcool e drogas e outros.

Tratamento

A esquizofrenia infantil é uma doença que não tem cura. Com a realização de acompanhamento e tratamento corretos, além de apoio social, porém, é possível que pessoas diagnosticadas com o transtorno mantenham a vida produtiva e integrada à sociedade. É importante contar com a atuação de uma equipe multidisciplinar, que pode trabalhar para que os sintomas da condição sejam controlados ainda na infância.

Além do uso de medicamentos prescritos por psiquiatras, a criança deve fazer psicoterapia e receber treinamento em habilidades sociais, ter acompanhamento psicopedagógico com orientação escolar e participar de grupos psicoeducacionais. Como toda a família sofre com a doença, há indicação para a realização de terapia familiar. Em casos mais graves, em que há riscos de agressão ou suicídio, a internação pode ser necessária.

Apesar de manter o controle dos sintomas, a medicação pode causar alguns efeitos colaterais, como aumento de peso, tremores, contrações musculares, movimentos mais lentos, sonolência e discinesia tardia (movimentos involuntários causados pelo uso de remédios psiquiátricos) a longo prazo.

Se o tratamento necessário não for realizado adequadamente, a esquizofrenia infantil pode gerar graves problemas de saúde, assim como emocionais e comportamentais. Essas complicações, porém, não se restringem à infância e podem ter impacto também na vida adulta. Algumas dessas complicações são:

  • conflitos familiares;
  • isolamento social;
  • problemas legais e financeiros;
  • falta de moradia;
  • depressão;
  • abuso de álcool, cigarro ou outras drogas;
  • transtornos de ansiedade, de pânico e obsessivo-compulsivo (TOC);
  • pensamentos suicidas e até tentativas de suicídio e suicídio.

Subtipos de esquizofrenia

Existem quatro tipos de esquizofrenia, que não são iguais e não evoluem da mesma maneira. Conheça alguns subtipos desse transtorno:

1. Paranoide: é o tipo mais frequente de esquizofrenia, caracterizado pelo predomínio de delírios sobre os demais sintomas. Normalmente, esses episódios levam o paciente a acreditar que está sendo perseguido e muitas vezes vêm acompanhados de alucinações auditivas e de perturbação das percepções;

2. Catatônica: tem como característica proeminente a alteração motora. Um sintoma típico é a obediência automática, por meio da qual o paciente obedece a todas as ordens simples que recebe, sem questionar. Pode haver combinação com alucinações cênicas vívidas;

3. Hebefrênica: é caracterizada por uma perturbação proeminente dos afetos, então o comportamento é irresponsável e imprevisível, as ideias são delirantes e as alucinações são fugazes e fragmentárias. Pelo rápido desenvolvimento dos sintomas "negativos", o prognóstico normalmente não é favorável. Esse tipo de esquizofrenia deveria, normalmente, ser diagnosticada apenas em adolescentes e adultos jovens;

4. Indiferenciada: essa categoria reúne os casos em que o paciente é diagnosticado com esquizofrenia, mas não é possível identificar nele características que permitam que o transtorno seja enquadrado em algum dos outros subtipos, ou há padrões de mais de um deles sem haver predominância de um conjunto específico de características de apenas uma categoria.

Atuação da família

Uma vez diagnosticada a esquizofrenia infantil, é importante que os pais acompanhem diariamente as mudanças de comportamento da criança, que não deve ser julgada ou criticada pelos familiares. Em caso de não haver melhora ou de o paciente apresentar discurso desorganizado, insônia, isolamento ou comportamentos estranhos, não deve ser forçado a enxergar a realidade por outra perspectiva.

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Além do tratamento médico, o paciente com esquizofrenia infantil precisa de apoio. É normal que a descoberta de uma doença em uma criança ou um adolescente desperte sentimentos como raiva, medo, culpa, vergonha, sensação de fracasso e naturalmente cause um desequilíbrio nas relações. É nesse momento que terapia familiar pode entrar e proporcionar benefícios.

Uma orientação, muitas vezes, ajuda a lidar com sentimentos e conflitos. Em casos nos quais as relações já não eram positivas, a terapia deve atuar com o objetivo de levar a família a compreender melhor as angústias e solucioná-las em conjunto, em busca do bem coletivo.

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Redação - Alô Bebê

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